Tudo estava muito escuro. Eu não conseguia enxergar nada ao meu redor. Percebia apenas ruídos indistintos no ar — e até mesmo esse leve rumor quebrava a paz de que eu tanto precisava. Não alcançava com os olhos a natureza nem as formas do mundo, e tateava a escuridão apenas para não perder o equilíbrio.
Contudo, a minha alma agradecia o recolhimento. Estar ali, naquele espaço quase desconhecido que eu não via, mas sentia, me colocava em estrita ligação comigo mesma. Meus pensamentos abriam espaço para outro tipo de convivência: uma conversa silenciosa e essencial.
Foi então que o meu corpo pareceu abrir uma caixa esquecida. De forma soberba e serena, ele me apresentou a totalidade da minha vida — uma existência inteira exposta sem receios, sem julgamentos, sem decepções e sem falso regozijo. Era uma sensação profundamente estranha. Não me sentia desafiada, embora estivesse envolvida por um luto denso, cujas garras inconsistentes tentavam me arrastar para uma indiferença consciente. Eu precisava daquele estado para atravessar uma dor que parecia irreal, como um momento que jamais deveria ter existido.
Meus passos eram lentos. Não havia pressa. Enquanto isso, o filme da vida projetava-se em telas invisíveis, resgatando episódios que lavavam e purificavam meu espírito em seu declínio temporário.
De repente, consegui sentir a presença de mãos fortes que me embalavam com firmeza e ternura. Compreendi, finalmente, a minha própria humanidade. Longe do chão firme, comecei a vivenciar a abstração: flutuava ludicamente sobre uma nuvem macia, retornando, passo a passo e suavemente, a sentir sensações que jamais deixaram de me pertencer.
Ao tocar novamente o chão, o choque doloroso já não tinha a mesma força. Ficou apenas uma clareza serena e cortante, como a luz que atravessa a névoa após a tempestade. Percebi que o colapso não viera para me destruir, mas para despir o que era ilusão e me devolver à minha essência. Agora, lúcida e inteira, respiro o presente sem os pesos do passado, pronta para habitar esse tempo que é meu.
Vânia Moreira Diniz


