Sinto a luz arcana do horizonte,
A despertar memórias de outras eras;
Tempos remotos, de uma face distante,
Onde já não alcanço as minhas primaveras.
Sigo o caminho, em passos sem urgência,
Fitando o brilho que ao longe se esquiva;
Apresso o peito em busca da essência,
Mas é apenas sombra, ilusão fugitiva.
Já não ressoa em mim o antigo anseio,
O mundo é pálido, sob um matiz estranho.
A melancolia invade o meu passeio,
Longe do júbilo que hoje mal acompanho.
O céu persiste azul, mas o poente
Vem desbotado, sem cores, sem chama.
Faltam-me as brasas da alma veemente,
Sinto o frio da calma que me desamarra.
Tudo é silêncio, mas ouço uma nota,
Vem de um confim, sinal quase irreal;
Que desfaz a quietude e o espírito adota,
Sem que eu saiba se é sonho ou final.
Não posso parar, a alma exige o novo,
Reaver o instante, o fulgor, a alegria;
Aquele momento que foi meu renovo,
E partiu, deixando apenas o rastro da magia.
— Vânia Moreira Diniz


