O Ofício de Reviver: Outubro e Minhas Raízes 21 de outubro
Outubro é o meu mês predileto. Nele nasci e sempre me senti acolhida quando o primeiro dia despontava, vibrante de sol e banhado por uma luminosidade que eu vislumbrava com extrema alegria. Desde a infância, meu coração se regozijava, enquanto meu pai me presenteava com brinquedos e ideias especiais. Ele me permitia, ainda, escolher agrados e guloseimas para que eu pudesse distribuir entre crianças carentes, fosse nas ruas ou nas ladeiras do Morro Santa Marta.
Fui criada num ambiente onde as datas eram sempre muito valorizadas. Eu me sentia exultante quando Outubro anunciava sua chegada. Era a combinação perfeita entre a claridade solar, a vibração do ambiente e a minha própria espontaneidade. Tais recordações me trazem de volta a imagem de meu pai entrando em casa, sempre risonho, com os olhos azuis a brilhar e os braços repletos de pacotes que me faziam estremecer de emoção.
Eu passava os dias a contemplar e a amar esse horizonte promissor em todos os sentidos. Atribuía um valor imenso à natureza, que se apresentava sempre brilhante e sedutora. Não dedicava um minuto sequer às sombras passageiras, pois o fulgor daquele mês era mais forte e deslumbrante.
Outubro ressurgiu e, sentindo as efusões carinhosas dos anos passados, abracei-o com a mesma fé de outrora, buscando divisar em sua vastidão a vida, a beleza e a ternura que ele continua a me proporcionar. Senti a esperança e a alegria se misturarem à fé, em todos os anos da minha existência.
Fiz, então, uma regressão solitária, porém profunda — sem a intervenção de um terapeuta, guiada apenas pelas técnicas que a alma conhece e acolhe. Mergulhei nas origens do meu ser, ri, chorei, brinquei, fui feliz, amei e me magoei. Passei por todos os estágios do sentimento, pelas sensações mais diversas e alternadas. Senti-me enriquecida até mesmo nos momentos em que as lágrimas desciam abundantes e dolorosas. Alegrei-me com os pequenos detalhes que tornam a vida singular, colorida e repleta de transformações. Sonhei e tive pesadelos, costurando esses opostos em vivências contraditórias, mas igualmente profundas e verdadeiras.
Vânia Moreira Diniz


