Desde 01 de Março de 2022

O Menino dos Olhos Azuis e a Pergunta Sem Resposta

Para meu irmão Cláudio, in memoriam

Um dia, ele me perguntou: “Por que estou assim?” Ele tinha apenas cinco anos; eu, doze. Meu irmão enfrentava uma doença mortal e era profundamente apegado a mim. Naquele instante, engoli as lágrimas; a inocência daquela pergunta era grande demais para a minha capacidade de responder.
Depois daquele dia, passei a ler obsessivamente sobre o que minava, pouco a pouco, o organismo do meu irmão. Cláudio tinha um rosto maravilhoso, olhos azuis, cabelos loiros e uma doçura tão imensa que, mesmo após tantos anos, permanece intacta na minha memória. Ele sofria de nefrose, um diagnóstico implacável para a época. Lembro-me de passar horas na sala de biologia do meu colégio, onde estudávamos ciências. Havia lá uma estrutura de aço com o contorno do corpo humano, exibindo os órgãos que tentavam me explicar o inexplicável. Eu compreendia a explicação técnica que o médico me dava, mas, em contraposição à lógica da ciência, uma tristeza absoluta invadia a minha alma.
Ali, em silêncio, jurei que um dia responderia à pergunta que ele me fez, mesmo que ele já tivesse partido. Durante todos esses anos, no meu contato interior com o Cláudio, busco o sentido para aquela indagação. Por que uma criança passaria por dores tão intensas, uma avalanche de remédios e tantas restrições? Eu me pergunto esse “porquê” todos os dias da minha vida. Eu estava presente, entre meu pai e o médico da família, no exato momento em que ele partiu. Não há nada no mundo que me faça esquecer aquele instante.
Mas só agora, mano, sinto que posso lhe dar parte dessa resposta. Olhando para o jeito que vai o mundo — as violências tenebrosas, as maldades inexplicáveis que nos cercam —, compreendo que a sua partida, embora tenha sido um golpe devastador para nós, foi também um livramento silencioso. O mundo aqui fora talvez lhe guardasse dores ainda piores do que as do corpo.
Sei que esta ainda não é a resposta completa, meu irmão. Por isso, sigo tateando o mistério, lendo a vida e pesquisando os porquês do mundo. Enquanto eu caminhar, sua pergunta continuará viva em mim, e será o farol que ilumina a minha busca.
Vânia Diniz

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