Luiz Alberto Machado
A dança do nascimento eu não sei, ao útero de minha mãe retornei a ser criança para crescer outra vez com a dor e disse sim. Não recusei meu destino, aceitei meu nascimento. Fui além do medo e do desejo, carreguei culpas invisíveis. E disse sim: sim ao meu não, ao meu nome, ao medo de fugir, à recusa do destino, à negação de tudo e me encontrei verdadeiro. E me afirmei ao me opor, do igual para o outro e fiz a aliança para me reconciliar com o passado. E me livrei da culpa e do horror, aceitei porque me vi maior que a minha doença: nunca fui escravo da emoção. E escolhi a minha vida, sou o vento que me carrega para a floração da primavera.
O que meus pais esperavam de mim, não vinguei; e me tornei o que sou; e, certamente, os tenha decepcionado. Não poderia ser como eles; prevaleceu a impressão de que nem fui desejado, apenas aconteci para surpresa, sinto nos meus tornozelos.
Provei do veneno e me curei.
Desci ao inferno, enfrentei minhas sombras e os rancores no ventre.
Sempre estive só e a palavra presa na garganta.
Perdoei e pude digerir o peso do meu estômago.
Teve uma hora tudo apodrecido ao meu redor, gente com cerviz dura e sem olhar, como se vissem nada, o vazio, e eu entre Erínias e Eumênides, aprendendo que o guerreiro realizado não precisa de armas.
Escutei meu corpo, ouvi histórias esquecidas, ignoradas.
Colhi o inesquecível que olvidei de mim mesmo, o imperdoável: o inesquecível de cada momento vivido. E sequer sabia, nem lembrava.
Fiz-me aspirante com os joelhos descobertos para a prece iniciática e o céu desceu à Terra.
Vi todos os lados e direções: tudo é muito maior do que possa perceber.
Tenho na mão o meu coração e todas as mudras para reencontrar a Estrela da Síntese.
Sempre precisei dar um passo a mais, caminhar leve, pés alados e na viagem ao centro de mim, não era outra a descoberta senão a dor da Terra: tudo será decomposto.
As minhas raízes eu sei, sou deste chão e levado, de argila sou feito; coxeio, na verdade danço, porque tenho em mim eu e meus irmãos, familiares e desconhecidos.
Ao me encontrar com a minha vida escolhida, me tornei o rei de mim mesmo. O aprendizado com os terapeutas de Alexandria me trouxe a Árvore das Sephirot e a escada de Jacó, soube o que me foi dado e não recebi por completa inaptidão. Nada não, se perdi a razão encontrei Deus e o abrigo para o alheio.
O que de mim restou, diante das provações da existência, ficarei de pé até o fim dos meus dias. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.
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