Luiz Alberto Machado

A rua deserta e as lembranças saltam pelas frestas do guarda-roupa como uma batucada de Naná Vasconcelos.
E dão conta de como tudo se tornou tão cruel agora, assombro e sombrio…
Ouvi e vivo incerteza, a pupila dilatada pelo volátil e o ameaçador, quantos lobos nem sei mais.
Para conversar restava apenas o Gato de Schrödinger, a brincar com minhas ideias desarrumadas.
Do outro lado, os besouros da caixa de Wittgenstein insistiam que a vida era só pra viver, que deixasse de lado todo viés da confirmação, pronto, mais nada porque não adiantava me incluir ou defenestrar todas as tribos, nunca pertenci a nenhuma delas e fui alijado até da família: ou luto ou fujo para a galáxia espiral NGC7469, lá na constelação de Pegasus.
Assim me ajudo o mais que posso, será?
Como os outros, a culpa é geral, inclusive minha e lá estou exposto ao oganessônio – ou é polônio, sei lá!
As galáxias se diluem e a existência é mínima e o que importa: sou o verdadeiro desconhecido.
Sei que não é o desejável, nem nunca será: o arrependimento virá de qualquer jeito, mesmo que aprenda de cor as metamorfoses do espírito que Nietzsche me fez do camelo ao leão e à criança, ao amor fati.
O bom foi que no meio dessa doidice pude ouvir Elena Ferrante: A vida era assim e ponto final…
Em todas as investidas eu ia com punho fechado pro inopinado e me desarmei.
Fui em frente: nunca esperei por milagre, ciente de que jamais sairia impune – ninguém é tão sábio para se tornar imune aos infortúnios.
Duvidava do mero acaso porque o mundo se dilatava sem que tivesse de constranger caminhos.
Aturdido, sabia: o que tenho apenas é a vida, nada mais…
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