Luiz Alberto Machado
Em minha alma sufocada o apito ancestral: era inevitável ouvir os lúgubres ventos ecoando os lamentos de soterrados seculares das matas devastadas, aruspícios primaveris jamais olvidados pelas indeléveis andanças. Nada mais restava e se desfazia no mormaço do meio dia daquela sexta feira no Córrego do Feijão, e um suposto terremoto trazia de longe o lixo tóxico como se reaparecesse Pompeia sobre Brumadinho no delíquio do tempo.
Próximo!
Ouvia de longe a Dionne Brand: não se engane, se está em paz é porque pode estar se acostumando com o mal… Era a dor da mulher deprimida, vítima de não sei quantas injustiças.
Próximo!
Seguia só. Não bastasse topar com o ermo e lá distante coisonazifacistas necrófilos escureciam o céu azul desatado, infortúnios estradafora e um rio de lama varria Bento Rodrigues do mapa naquela tarde depois de novembro e ninguém se lembrava mais das enchentes do Una de 2010.
Próximo!
Aplaquei um pouco a passada, olhei dos lados e, ao perscrutar, fui alertado por Christina Rossetti: melhor esquecer e sorrir, não entristecer-se com recordações.
Próximo!
Era como se nunca chegasse a minha vez e as lembranças tomavam todas as formas corpóreas, próximo!
E era como se eu estivesse prestes a ser despejado, abrigo embaixo da ponte, já que não tinha mais quem amasse e a companhia de quem parecesse nem mais existir, reduzindo-me a anfitrião de micróbios, bactérias, fungos, vírus, arqueias e outros sei lá quantos micro-organismos, perdido nas dimensões quânticas e a vertigem nas asas dos sonhos.
Próximo!
Havia alguém por perto, eu sabia, e ela era tal invisível Samantha do Her de Spike Jonze – um corpo de luz vers&prosa como gotas de chuva escorrendo poema livre na minha pele suada.
Próximo!
Já se fazia uma tarde cinza de quase agosto e ela me chamava: Theodore! Virei-me e pude ver-lhe o último aceno, como se fosse Mariana a deusa grávida enlameada, inexoravelmente tragada pela estrondosa tragédia. Quem veria meu lado tristonho e se parecesse divertida a minha aflição: em minha carne a dor dos mortos dali e dalém.
Assim mesmo, Irene Solá me instigava escrever, a voz dela e a ventania forte nos meus passos perdidos por minas que são pedras falsas de areias movediças e mais me sentia lixo escorrendo pela sonda perdida: Sombras do chão no céu de Maceió.
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