Desde 01 de Março de 2022

O POEMA À BEIRA DO PRECIPÍCIO…

Luiz Alberto Machado

Rabisquei o primeiro verso e o Sol dormia no Jardim das Hespérides. No fundo do meu olho a escuridão e uma maçã de ouro mostrou os descaminhos – minhas mãos queimavam pelo inefável: uma espera que se fez certeza entre dias quentes e noites acaloradas, parecia mais que queriam fazer deste lugar um imenso incinerador.

O segundo verso intenso e já pulei de cabeça incontáveis vezes e de qualquer jeito: conhecia de cor as muitas funduras abissais, rastejando fora do curso com as escoriações de espatifar pelas pás de um imenso ventilador, atravessando corredores e pretextos – quem me via assim juntando o quebra-cabeça dos meus pedaços espalhados.

O terceiro verso era o que já voltei atrás o tanto de quantas e me consumia com o decoro infame e as interrupções pelos conflitos, as reticências na casca ruindo – mudava de pele pela zilionésima vez, intervalos de guerra e não sabia a quem ou como pedir ajuda. Não conseguia jamais entender o que diziam de voltar ao normal, sei que despirei chacoalhado por palavras cheias de dáblius, ípsilones e kás de nomes alheios, sotaques e cacoetes, arrastado pelo bombardeio de profundas e enganosas ilusões, circunlóquios cruéis, delírios outros e ficaram as coisas nesse pé, chovendo canivetes no jogo infinito dos instantes, o desconforto dos desencontros, um segundo antes do disparo ensurdecedor e a mim mesmo repetindo teimosamente não mais voltar atrás jamais, exibindo o troféu das cicatrizes.

O quarto verso era o núcleo da Terra parando – não sei quando tudo começou, só a duração da febre crepitando na vontade para onde aos solavancos e o embaraço de que nada deu certo nem modificou, tudo era não mais que uma nuvem e o vento nas folhas, a brisa no mormaço da sombra e eu em estado de graça remexendo nas ideias: o que seria dali em diante, qual porta alguém abriria, becos sem saídas, muros e paredes intermináveis, encruzilhadas de vielas na corrosão do tempo, erosão do espaço, afetos apodrecidos.

Estava tonto e no quinto verso perdia a vergonha na cara entre vírgulas e esdruxulas exclamações – ninguém suspeitava meu segredo: a vida sentou-se ao meu lado, com um capacete de Sutton Hoo e às gargalhadas. Ao retirá-lo, pro meu espanto, fez uma linda careta risível. Talvez me quisesse punir, como se fosse uma das mulheres que amei ao abandono. E contou uma piada: a lua evadiu-se e se perdeu pela órbita de marte, quem estava onde e olhava pras coisas sem dizer nada, a palma aberta das mãos e as linhas do meu próprio labirinto de quem já esteve lá, passou por todos os lugares, sempre às vésperas de partidas e já foi longe demais.

Assim passaram-se muitos anos e o sexto verso quando deu liga, elos esgarçados. O quanto aprendia, nova lições no pau da venta e por entender entre outras tantas se revelavam e de novo reaprendia, outra vez, sempre ou quase.

Era o sétimo verso e tudo passava, estava esborrando vertigens de ontens e uma sensação recorrente de fim, trocando pés e pernas trôpegas, os olhos fixados na distância do futuro: o que virá qualquer efeito nem terá sentido, um dia a hora agá e o poema da incompletude no novo verso interminável. © Luiz Alberto Machado. Direitos reservados.

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