Existem pessoas que possuem o raro dom de despertar o que há de mais luminoso em nós. Muitas delas já atravessaram o limiar do tempo, mas suas palavras permanecem vibrando em meu coração, como ecos que se recusam a calar. Eram seres que dominavam a arte da escuta — uma entrega tão preenchida de afeto que sua repercussão imediata era a cura. Saíamos de sua presença com a mente leve e a certeza de que a dor havia, enfim, encontrado um lugar de repouso.
Meu pai era o mestre desse talento. Sabia ouvir com uma atenção tão plena que sentíamos a ressonância de sua presença mitigar nossas angústias. Nele, coexistiam duas facetas admiráveis: a firmeza necessária, quando a vida exigia contundência, e uma bondade profunda, que emergia após processar nossas queixas e compreender a exata dosagem de amor de que necessitávamos.
Minha mãe, em contrapartida, era a própria tradução da serenidade. Nunca lhe ouvi um grito ou percebi qualquer rastro de mágoa que escapasse por entre seus lábios. No entanto, sob essa superfície tranquila, habitava uma agudeza singular: ela sabia, nos momentos oportunos, desferir alfinetadas precisas sem jamais elevar o tom de voz. É difícil precisar o que nela era mais fascinante: se a discrição elegante que conservava como um manto, ou a autoridade inabalável com que sustentava suas convicções, muitas vezes expressas através de uma ironia fina e sutil.
Nossas naturezas, por vezes, colidiam. Carrego em mim uma carga emocional intensa, explosiva e profunda, e o temperamento reservado dela talvez não compreendesse a real extensão do que eu sentia. Foi justamente no contraste entre a minha vibração e o silêncio dela que aprendi a apreciar a extrema riqueza da vida interior.
Se hoje mergulho nessas recordações, é porque a perplexidade diante do mundo atual me empurra de volta ao que é essencial. O passado é a chave que destranca a compreensão do presente. Quanto ao futuro, não sei se chegarei lá; para mim, ele é o “amanhã” imediato, o próximo minuto. O que realmente importa é a urgência de viver enquanto formos capazes de sentir, em toda a sua plenitude, as vibrações de cada amanhecer.
Vânia Moreira Diniz


