Desde 01 de Março de 2022

Vazio e Plenitude

Sinto o peso da distância inexorável do tempo, essa correnteza silenciosa que nos arrasta. Sinto o vazio eloquente das horas que se esvaem, vastas e despidas de significado imediato, mas prenhes da memória de instantes que se foram.

Ainda pulsa em mim a lembrança dos momentos outrora enriquecidos e cinzelados pelos sonhos mais audaciosos — aqueles vislumbres de um futuro que, por um sopro, parecia tangível. E das esperanças que, como sementes teimosas, insistem em se manifestar e florescer, mesmo sob o inverno da dúvida.

Mas, vejo também a luz que, gradualmente, declina e se apaga, não com o súbito choque do ocaso, mas na lenta e inegável diminuição do brilho de cada aurora. E é na penumbra dessa certeza que me aproximo, em passos cada vez mais curtos e definitivos, do finito — do horizonte final onde a jornada terrena se curva.

Avanço para o encontro imprescindível e misterioso com um espaço cuja natureza e dimensão minha mente é incapaz de conceber. Um limiar que me chama para além da experiência sensível, para uma vastidão que talvez seja o reverso do nada, ou a plenitude indizível de um lar primordial. É o destino derradeiro, a promessa de um repouso onde, talvez, o tempo não mais lance suas sombras e as horas vazias se dissolvam no eterno.

E assim, a única resposta que resta, perante a imensidão que se avizinha, é viver a incerteza com a dignidade de quem sabe que a eternidade reside, não na resposta, mas na pergunta que a alma teima em levar consigo ao cruzar o último limiar

Vânia Moreira Diniz

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