Desde 01 de Março de 2022

Para onde vou?

Vânia Moreira Diniz

Caminhava buscando nas ruas a serenidade que me faltava. Vultos familiares surgiam ao longe, mas logo se perdiam na multidão. Atravessei a rua, cenário de tantos anos, e lembrei-me de cenas recentes, buscando afastar as antigas que ainda me assombravam.

O tempo nublado parecia espelhar a sombra em minha alma. Enquanto seguia meu caminho, sorrisos de desconhecidos me acolhiam como se fossem velhos amigos. Absorvi cada gesto, cada olhar, esperando que aquela gentileza me trouxesse algum alento.

Descalça, pisei na areia branca, meu refúgio predileto. Ansiava que a água fria me envolvesse, aproximando meu corpo da areia, fundindo-me à praia. Meus pensamentos corriam soltos, como em outros momentos de aflição.

Permaneci ali, imóvel, buscando nas profundezas da memória a origem do meu tormento. Olhei para a imensidão verde que eu tanto amava e me perdi em sensações estranhas, em desejos de fuga.

Não queria retornar. Nunca mais! Nem mesmo encontrar respostas. Gostaria de ficar ali para sempre, ouvindo o mar murmurar segredos como em outros tempos. As ondas me convidavam, baixas e tranquilas. Avancei em direção a elas, deslizando entre as espumas, até alcançar o verde que me extasiava. A água gelada me despertava, trazendo-me de volta para o presente.

Sentia minha imagem refletida na água, um sorriso sereno que não encontrava em mim mesma. Ali, no frio que me despertava e na imensidão que me acolhia, eu me descobria.

Amava a natureza em cada momento, em cada nuance. Imaginei-me imergindo, a respiração acelerada, o corpo relaxado buscando o fundo, os braços me impulsionando nesse caminho inexorável.

Uma estranha imobilidade me dominou, trazendo uma sensação de segurança e quase felicidade… Então, uma escuridão repentina me envolveu. Pisquei os olhos, confusa. O mar havia sumido, dando lugar a um teto familiar. Em vez da areia fria, sentia o conforto dos lençóis. Aos poucos, os móveis do quarto emergiam da penumbra. Acordei. O sonho se esvaiu, deixando-me um vazio no peito.

Vânia Moreira Diniz

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