Desde 01 de Março de 2022

O silêncio dos ausentes

Cheguei ao Rio de Janeiro numa tarde de sol, atraente como de costume, com seus reflexos maravilhosos a tocar-me o rosto, trazendo uma sensação imediata de beleza, bem-estar. Conversei com o mar, exatamente como fizera por toda a vida, contudo uma estranha sensação de vazio me inquietava. Adentrei a casa com o coração a palpitar em êxtases indescritíveis, convidando-me ao silêncio após anos de ausência.

O lar mantinha a beleza de outrora; a vida tinha-se esvaído. A falta de meus irmãos, de meu pai, de minha mãe ressoava dolorosamente no meu peito. Recordava com profunda saudade a nossa ruidosa convivência, os dias de celebração, as conversas; as festas de Natal, Ano-Novo que se sucederam anualmente desde o meu nascimento. Como me alegrava a lembrança de estar ali, sentindo tamanha paz em meio às inúmeras reuniões familiares! Por que, afinal, em certos momentos, eu havia desejado ir para outros mundos, sentindo-me incompleta? Como fui feliz naquele abrigo, cercada, amada, no pleno desenvolvimento de minhas capacidades.

Agora sim, sentia-me desprovida de muitas direções. O burburinho familiar que vinha da rua ganhava o toque melancólico da ausência dos entes queridos, do movimento natural, dos diálogos apaixonados ou risonhos, da verdadeira essência da vida. Sim, tudo estava em seu lugar: a suntuosidade de cada detalhe, os objetos adquiridos com carinho, os quadros nas paredes. Mas onde estaria o ruído espontâneo dos dias passados, o afeto, a ternura, até mesmo os pequenos desentendimentos de que me recordava com uma estranha nostalgia?

Não, aquela casa já não me pertencia; nunca mais voltaria a vibrar, a escutar as gargalhadas de meu pai, a observar a postura elegante de minha mãe, a ouvir o típico rumor que eu tanto amava, sem jamais ter compreendido o quão fundamental tudo isso era.

O Rio de Janeiro será sempre amado por mim, o mar ovacionado pela minha alma, sua beleza eternizada em meus olhos, meu coração baterá sempre mais forte por pisar seu solo. Faltaria, contudo, o abraço que em outros tempos eu daria, efusivamente, a tantas pessoas  ausentes. Minhas recordações estão aqui, vívidas, nítidas. Não permitirei que elas se apaguem jamais
Vânia Moreira Diniz

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