Luiz Alberto Machado

Um ínfimo grão embrionário num monturo de areia.
Ah, sempre me achei nada diante da imensidão do universo.
Tudo é adverso: o caos, o abismo, o vazio do deserto.
Primordial, do nada pra alguma coisa: de ser maior que a si próprio. E rompo a casca, limites, barreiras, redomas. Absorvo água, luz e calor. Dilato-me e saio do casulo: o mato rasteiro, o lodo do rio, as larvas, os excrementos, descobertas.
Os que vêm e vão: ascendem, descendem. Nem tudo é do mesmo jeito: brotamento, cissiparidade, esporulação, regenerações, hermafroditismo. E testemunho o ciclo dos proglotes pro cisticerco, a viagem do grão do pólen das anteras aos carpelos, os ventos, a chuva, o tempo, vicissitudes, simulacros.
Fixo-me no que sou e estou. E alicerço o primeiro com outros repetidos esforços aos mínimos tentáculos, criando incipientes raízes.
Inauguro a expansão e me enraízo no mundo: o chão, a minha moradia. Sou piso, sou teto e sou eu: o imenso de mim que é nada.
Tento, ouso, enfrento e vou.
Minúsculo, não sou capaz de preencher meus vazios; maiúsculo, muito menos. Não basta o que me cabe.
Quero mais e sou responsável por meu destino.
Escolho, encontros; voltas, despedidas. E broto, cresço-me, faço-me caule, folhas, frutos.
Cumpro minha missão: sou pleno e nada. Eterno retorno.
Regresso-me: degenero e sou nada mais ainda e outra vez. Cinzas aos ventos. Sou-me. Renasço em você. © Luiz Alberto Machado.
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