Desde 01 de Março de 2022

TERRA DO QUE SOU VIDA QUE ME CABE

Luiz Alberto Machado

I

Sou deste chão a semente na asa do cajubi ao Sol no céu de todas as estrelas pelas estradas que sei que voo aos infinitos recônditos de mim.

Sou deste chão desde o tempo em que tudo mais perto ao alcance das mãos e não havia noite no dia sem fim, e todas as coisas falavam e éramos um só Tupã no silêncio do coco de tucumã.

E logo vi nas águas galhos e florais, as raízes dos matagais de todos os pássaros, as abusões das florestas, o fogo feito ao vento de todas as direções, a poeira das ventanias pelas pedras, a corrente pros mares e sopro dos vendavais.

Eu já o sal do suor, o doce da fruteira, o clarão dos dias, escuridão das noites, a vertigem dos abismos, os restos mortais.

E a Lua entre as nuvens da chuva boa que renascia Terra mulher do que sou, vida que me cabe…

II

UATAÇARA UATÁ RAME UATAÇÁBA

Despertei asfixiado por uma bomba de gás lacrimogêneo.

Meu nome era outro e morria de tarde sacudido de cabeça pra baixo num buraco bem fundo, só as pernas de fora…

Quem me reconheceria, jamais.

O que a grande indignação com as emboscadas: o meu povo morria comigo a cada instante.

Ressurreto entre claroscuros, outras as trovoadas e meus muitos pedaços…

Era só o que sempre foi: um palmo a menos, um passo a menos na vida de cada dia. O caminheiro segue…

III

MINHA ALMA TUPI-GUARANI, MINHA SINA CAETÉ…

Sigo adiante e nenhuma mata há mais.

Passo suave claudicante e os mil nomes de Gaia: a memória e o diário da queda recorrente.

Quantas incertezas: a guerra é aqui e em todo lugar.

Perdi datas e direções, escapar é a questão.

Todo lugar é outro e não há desiderato possível.

Para quem se perdeu a lonjura não mais existe, paradeiro é qualquer ermo…

Sim, Mãe caeté do quilombo em que nasci, Malunguinho sou…

IV

RENASCER DA MEMÓRIA, REENCONTRO DE EMOÇÕES…

Nasci entre um rio e um sorriso de mulher.

A vida era branda então e o Sol nascia por trás do morro para me ensinar a escuridão.

Estradas se fizeram com todas léguas além do quintal e eu crescia no mundo pelos aromas do dia com noite no meio de outro.

O que tivera de ser e não fui, saí do traçado.

Nunca tive tempo para hesitações nem penitências.

Sempre prestei muita atenção às coisas – as que são parte de nós e somos, apesar de não ouvir os que falavam, se é que diziam alguma coisa: olhos proutro lado, desde os de tantos de não sei quando, lonjura a perder de vista – era como se estivesse diante dos perós dagora com seus perdigotos & malefícios além do Opará.

E agitou-se o maracá na areia macia Kapinawá com Fulni-ô, Kambiwá, Xucuru, Truká, Atikum, Pipipã, Pankararu, Tuxá.

Arreia, Toré! E vi minhalma indiafro, negríndia. E a gente com três folhas ao vento e uma canção no peito: ser-me o que sou deste chão minha vida.

TIERRA DE LA QUE SOY VIDA QUE ME AJUSTA

Luiz Alberto Machado

I Soy de esta tierra, la semilla en el ala del cajubi, al Sol en el cielo de todas las estrellas, por los caminos que sé que vuelo hacia los infinitos rincones de mí. Soy de esta tierra desde cuando todo estaba más cerca y no había noche en el día sin fin, y todas las cosas hablaban y éramos un solo Tupã en el silencio del coco de tucumã. Y entonces vi en las aguas ramas y flores, las raíces de los matorrales de todos los pájaros, los abusos de los bosques, el fuego hecho en el viento de todas direcciones, el polvo de los vientos sobre las rocas, la corriente hacia el mares y el soplo de los vendavales. Ya soy la sal del sudor, la dulzura del frutero, el brillo de los días, la oscuridad de las noches, el vértigo de los abismos, los restos mortales. Y la Luna entre las nubes de buena lluvia que renació Tierra mujer de lo que soy, vida que me conviene…

II

UATAÇARA UATÁ RAME UATAÇABA

Me desperté asfixiado por una bomba lacrimógena. Mi nombre era diferente y morí en la tarde, tirado boca abajo en un hoyo muy profundo, mostrando solo mis piernas… ¿Quién me reconocería alguna vez? Cuál fue la gran indignación con las emboscadas: mi gente murió conmigo a cada instante. Resucité entre las luces, otras tormentas y mis muchos pedazos… Era lo que siempre fue: un centímetro menos, un paso menos en la vida cotidiana. El conductor continúa…

III

MI ALMA TUPI-GUARANÍ, MI FINO CAETÉ…

Avanzo y ya no hay bosques. Paso suave y cojo y los mil nombres de Gaia: el recuerdo y el diario de la caída recurrente. Tantas incertidumbres: la guerra está aquí y en todas partes. Perdí fechas y direcciones, escapar es el punto. Cada lugar es diferente y no hay ningún deseo posible. Para aquellos que han perdido el rumbo, la distancia ya no existe, el paradero es cualquier desierto… Sí, Madre Caeté del quilombo donde nací, Malunguinho soy…

IV

RENACIMIENTO DE LA MEMORIA, REUNIÓN DE EMOCIONES…

Nací entre un río y la sonrisa de una mujer. La vida era tranquila entonces y el sol salió detrás de la colina para enseñarme la oscuridad. Se hicieron caminos a todas las leguas más allá del patio trasero y crecí en el mundo a través de los olores del día y la noche en medio de otro. Lo que tenía que ser y no lo fui, me descarrilé. Nunca tuve tiempo para vacilaciones o penitencias. Siempre he prestado mucha atención a las cosas, a las que son parte de nosotros y lo somos, a pesar de no escuchar a los que hablaban, si es que decían algo: ojos del otro lado, de tanta gente de No sé cuándo, tan lejos hasta donde alcanza la vista – Era como si estuviera enfrentando los problemas del ahora con sus desgracias y males más allá de Opará. Y la maraca se sacudió sobre la suave arena de Kapinawá con Fulni-ô, Kambiwá, Xucuru, Truká, Atikum, Pipipã, Pankararu, Tuxá. ¡Arnés, Toré! Y vi mi alma indiafro, negra. Y nosotros con tres hojas al viento y un canto en el pecho: sé lo que soy en esta tierra, mi vida.

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