Desde 01 de Março de 2022

A Fidelidade ao Encanto: Os Passos da Infância noTempo

Há uma geografia invisível que une a criança que fomos à pessoa em que nos tornamos. Aos sete anos, o mundo ainda é um vasto território de mistério e promessas, onde os sonhos não cabem nos cálculos do tempo; eles apenas existem, puros e inteiros, como sementes lançadas em solo fértil.

Quando eu tinha sete anos, meu avô me olhou com a cumplicidade daqueles que sabem ler o invisível e me fez uma promessa: garantiu que eu nunca perderia o acesso ao pó de pirlimpimpim de Monteiro Lobato, e que a minha imaginação seria um porto seguro contra qualquer aspereza do mundo.

Dizer “obrigada” àquela menina é reconhecer que a centelha inicial não se perdeu no labirinto dos anos. Entre as muitas curvas que a vida impõe — entre as obrigações, as perdas, as rotinas e as transformações —, houve um sonho que recusou o esquecimento. Ele não permaneceu estático no passado; fez-se âncora e bússola. A vida, com seus inevitáveis entraves, tentou por vezes cobrar o pedágio da realidade. Houve dias em que o peso do cotidiano ameaçou secar a tinta, silenciar a voz ou empoeirar os cantos da alma. Mas o tempo tem seus próprios segredos, e a fidelidade a uma infância bem guardada é mais forte do que qualquer intempérie.

O maior triunfo da minha jornada não foi apenas desviar dos obstáculos, mas o que fiz deles. O pó de pirlimpimpim não era uma metáfora vã; era um método de sobrevivência e beleza. Sobreviveu intacto em cada verso escrito à mão, em cada tela que pintei, em cada página que ajudei a construir e na maneira obstinada como escolhi olhar para o mundo com os olhos arregalados de quem ainda acredita na magia das palavras.

Mesmo nos piores ou nos mágicos momentos da caminhada, tudo podia acontecer, menos me afastar da fantasia de continuar a dar vida aos desdobramentos dos meus pensamentos. Para aquela menina, eu permaneço fiel — até mesmo nas lágrimas de dor ou na felicidade silenciosa dos muitos eventos de reconhecimento que a vida me trouxe, mantendo aceso o profundo brilho da alma que iluminou as ondulações da minha existência.

Se pudesse dizer apenas uma palavra àquela menina de sete anos, seria um agradecimento profundo. Obrigada por ter aceitado o encanto, por ter confiado na promessa do avô e por ter carregado esse pó mágico no bolso de todos os dias. Graças a ela, a imaginação nunca envelheceu — ela apenas aprendeu a voar mais longe.

Vânia Moreira Diniz

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