Desde 01 de Março de 2022

A menina da esquina

a menina da esquina Cafiero Filho

Que garota mais linda…

Não aquela beleza clássica, de rostinho angelical, semblante ingênuo, plástica estonteante…

Era um verdadeiro dínamo: 1,59m, cabelão negro e crespo, rosto alvo, trazendo um sorrisão aberto; a felicidade estampada naquele corpinho saltitante e irrequieto. Sempre se destacava das colegas de escola, exatamente, por aquele ar de frescor, de estar de bem com a vida, de gostar de acontecer…

Eu passava por ali todas as manhãs a caminho do trabalho e, invariavelmente, lá estava aquele grupinho em rebuliço, com sainha azul marinho plissada e blusa branca; sapatinho característico de colegial. Não conseguia resistir a olhá-las, mesmo porque o burburinho emitido e os arrulhos festivos, sempre chamavam minha atenção. Acredito que fosse simples presunção, porém, notava uma malícia gostosa e juvenil no rostinho daquela menina; quando desviava o olhar em minha direção. Assim se passaram dias, semanas, meses, nessa rotina interessante. Eu até já aguardava, ansioso, o momento de passar naquela esquina e vê-las; algumas vezes até tentado a oferecer carona, para saber aonde estudavam, algo assim.

Mas, eis que, de repente, alguma coisa começou a mudar: aquele compromisso matinal da escola, passou a rarear… Pra onde foram aquelas meninas?!? Será que mudaram de ponto?!? Não era tempo de férias; não tinha recesso escolar… O que poderia ser?!? Aquilo começou a me intrigar…

Um certo dia eu a vi, na mesma esquina… Cenário totalmente diferente: estava sozinha, rostinho triste; o cabelo opaco; sem aquele jeitinho brejeiro…. Pensei que, talvez, não estivesse num bom dia; afinal, acontece. Só que não… A cena se repetiu em dias espaçados: ela sempre sozinha, sem aquele arzinho atrevido e brejeiro que eu tanto admirava; seu olhar parecia perdido em algum ponto incerto… definitivamente, não era a mesma garota, que tanto me chamara a atenção!!!

Aí sim, comecei a conjeturar sobre o que poderia ter acontecido para provocar semelhante transformação nos hábitos e ações de uma pessoa tão vibrante e intensa. Vontade de parar e perguntar; sentia que ela precisava ser auxiliada de alguma forma. Mas, como poderia me aproximar de uma menina que sequer conhecia – deveria ter uns 13, 15 anos – não sabia quem eram seus pais; o que pensariam de mim; como ela reagiria a uma abordagem; sabe-se lá que trauma havia sofrido…

Algum tempo depois eu a vi caminhando, sozinha, num local aonde forçosamente temos de passar para chegarmos a outras regiões da cidade; sendo, porém, um lugar pouco recomendável pra se estar sozinho e, principalmente, a pé. Notei que ela parecia assustada e insegura, naquele local inóspito. Contudo, não tinha como fazer uma abordagem, até porque ela caminhava cabisbaixo; com passos ligeiro e sem olhar para os lados. Creio tê-la visto mais uma ou duas vezes naquela vizinhança, sendo que depois, perdi-a de vista; definitivamente.

Ainda hoje penso naquela menina tão graciosa, tão cheia de vida e entusiasmo, que se perdeu num imenso e inescrutável mistério; e ainda me pergunto:
Onde estará e o que, realmente ocorreu, com aquela linda menina da esquina?!?

Cafiero Filho.
19/05/2022.

Compartilhar Artigo:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn

Respostas de 3

  1. Impactante… Risiss.
    Senti enorme emoção ao deparar com esse texto em seu portal, amiga Vânia. Sensação de estar vendo-o pela primeira vez: mais encorpado, distinto, senhoril…
    Excelente apresentação!!!
    Lembrou-me do prazer que tive ao participar de seu antigo jornal.
    Gratidão!!!

  2. Gratissimo pelo comentario, Vânia. É, realmente, estimulante ter um retorno tão simpático. Procurarei empenhar- me para escrever com mais regularidade; pois, estou bastante preguiçoso… Risiss.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

RELACIONADOS

Você também pode gostar

Altitudes, latitudes e longitudes

Prefácio De Leila Miccolis para Vânia Moreira Diniz Livro Eu me enterneço Prefaciar uma obra às vezes é mais fácil do que apresentar seu autor,

Palavras de Ana Peluso

Há  anos recebi de minha grande amiga Ana Peluso uma crítica de um dos meus livros. Ela foi enviada nas lembranças do facebook e me