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07) Couraças de Infância

Há portas no porão da memória que permanecem trancadas por décadas, até que uma chave invisível as abre de repente. Foi o que me aconteceu dias atrás, assistindo à palestra de um psicólogo. Um detalhe sutil tocou o meu inconsciente e resgatou uma cena que jazia sepultada há muitos anos.

Eu devia ter por volta de oito anos. Minha avó paterna havia partido pouco tempo antes, deixando em mim uma saudade irremediável. Ela era uma figura luminosa: culta, inteligente, de uma beleza rara. Horas a fio, eu podia ficar a ouvi-la contar histórias. Sua partida foi um dos golpes mais profundos da minha infância.

Até que, naquele dia na escola, fui tragada por uma daquelas inevitáveis crises de riso infantil. Eu e minhas colegas começamos a rir enquanto a professora explicava a matéria. Quanto mais eu tentava me conter por medo de ir parar na diretoria, mais o riso escapava incontrolável.

Foi então que, num relance de desespero para me recompor, uma estratégia insólita brotou na minha mente de criança: pensei na morte de vovó.

A imagem da perda desabou sobre mim como uma cortina de chumbo. O riso cessou instantaneamente, sufocado por uma tristeza súbita. Consegui me acalmar e, infelizmente, repeti esse recurso amargo algumas outras vezes naquela época.

Com o passar dos anos, a mente, piedosa, tratou de apagar o artifício. Mas ao redescobri-lo agora, fui invadida por uma onda de melancolia. O resgate trouxe à tona não apenas a lembrança daquele colégio distante, mas também a sombra da perda precoce do meu querido irmão, anos mais tarde, quando ele tinha apenas cinco anos. Percebi, comovida, como a infância às vezes precisa vestir couraças pesadas para suportar o peso do mundo e das primeiras grandes dores.

Olhando hoje para aquela menina que precisou invocar a morte para silenciar a alegria, vejo o quanto a nossa sensibilidade é um porto onde se abrigam, ao mesmo tempo, a luz e a penumbra. Guardei essa confissão nas páginas de O Caderno das Primeiras Linhas não como uma ferida, mas como um abraço terno nessa criança que fui. Compreendi que recordar é, antes de tudo, perdoar a si mesma pelos caminhos que a alma encontrou para sobreviver e continuar amando.

Vânia Moreira Diniz (Vânia Arraes Moreira)

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