Ontem, o tempo resolveu me visitar sem pedir licença. No fundo de uma caixa antiga, entre sombras e objetos esquecidos, reencontrei-me em um simples pedaço de papel. As letras, incertas e grafadas a lápis por uma mão pequena, eram um espelho nítido onde me reconheci imediatamente. Meus olhos ficaram úmidos, mas as lágrimas não caíram; elas preferiram retroceder e inundar a alma, recordando profundamente um tempo em que a vida era feita de esperas, não de urgências. Era um tempo sem “curtidas” ou validações externas, onde o valor de um pensamento morava no silêncio do peito. Naquela calma da infância, havia apenas a fé — uma pressa mansa de que o tempo corresse para que eu pudesse, finalmente, escrever e ser lida por muitos corações.
Quanta ingenuidade habitava aqueles dias! Eu acreditava em uma solidariedade absoluta e universal, embora meu vocabulário de menina ainda não soubesse dar nome a esse sentimento tão nobre e, por vezes, tão escasso. Hoje, conquistei meus “cantinhos da vida” de onde disparo palavras ao mundo e onde algumas pessoas podem ler, mas confesso que sinto falta daquela crença inabalável nos sonhos que me serviram de bússola até aqui. A beleza das imagens coloridas que me faziam sorrir parece ter se diluído na névoa cinzenta dos anos e das ausências.
Aquele papel antigo, impregnado com a sinceridade das quimeras de uma menininha que reencontrei, trouxe-me uma tristeza mansa e reflexiva. Ao olhá-la através das décadas, percebi que o destino nem sempre foi gentil com o roteiro das suas fantasias. Quase nada daquilo se realizou conforme o planejado, exceto por um detalhe fundamental: a minha teimosia em continuar. Sigo tentando ultrapassar os momentos de dores agudas e as decepções profundas que, tantas vezes, tentaram silenciar minha voz. Com as mãos cansadas, mas firmes, sigo retirando os espinhos de flores que, apesar de tudo, ainda insistem em exalar doçura em meu caminho.
Toda uma vida se desenhou à minha frente em um único segundo de leitura. Pude ver os desdobramentos, por vezes cruéis, das chamas que queimavam minha alma infantil e que agora ressurgem das cinzas.
Foto original de Vânia Moreira Diniz (Vânia Arraes Moreira) – 16/07/2026


