Desde 01 de Março de 2022

Um Necessário Recuo Estratégico

Sinto uma urgência avassaladora, quase surpreendente, de caminhar sem rumo e sem destino, deixando para trás o peso insuportável dos acontecimentos recentes. Tenho sede de fechar os olhos e embarcar em uma viagem profunda para dentro de mim mesma — rezando, em silêncio, para que o meu interior não esteja tão devastado quanto o nosso planeta.

Preciso esquecer. Esquecer não só as minhas dores, mas o sofrimento alheio que reverbera em mim; a angústia de todos que, neste exato instante, atravessam horas sombrias.

Gostaria de ter o poder de apagar da memória as guerras, as atrocidades que desafiam a razão, as desilusões e essa desesperança que nos curva. Dói testemunhar a luta do homem contra o homem, a permanência da violência e a escassez assustadora de solidariedade, humanidade e caridade.

Vivemos, verdadeiramente, uma crise de afeto. Atravessamos uma fase árida de falta de amor genuíno, onde a preocupação com o próximo, no sentido mais amplo e nobre da palavra, parece ter desaparecido.

Ah, como eu desejo sonhar apenas com o que existe de melhor e mais consistente! Quero visualizar imagens que acalentam a alma e acreditar, nem que seja por um instante, que tudo está maravilhoso.

Transporto-me agora para a areia da praia, bem perto da arrebentação. Desejo tirar as vestes e as armaduras, deixando-me molhar inteira pela água gelada e purificadora de Ipanema.

Quero entregar às ondas, em segredo, tudo o que me pesa, confiando que as espumas levarão para longe. Olhar ao redor e sentir que, apesar de tudo, a energia soberana da natureza ainda nos mantém, nos fortalece e nos devolve a alegria.

Gostaria de despertar do outro lado do mundo, num lugar onde não precisasse pensar em cuidados, onde não presenciasse a miséria, nem precisasse atinar com a frieza com que se fala da morte e se aceita o inaceitável.

Mas agora, neste exato momento, o que me resta — e o que escolho — é o silêncio. Preciso apenas calar, compreender onde estou e retroceder. Fazer um recuo estratégico para, quem sabe, reencontrar a paz.
Vânia Moreira Diniz

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