
Foram longos dias de intensa reflexão, nos quais preferi o isolamento para decifrar a inquietação que habitava minha alma. Uma dor lancinante no peito, de origem incerta. Talvez fosse uma fissura antiga ou fragmentos de memórias alojadas no inconsciente que, enfim, se libertavam para que eu pudesse compreendê-los. E a responsabilidade era inteiramente minha.
A certeza de que só eu poderia captar e encontrar essas respostas foi, em si, uma grande libertação. Não que me sentisse ilesa dos traumas, mas percebi que ninguém mais estaria disposto a navegar por profundezas alheias. Talvez apenas meu pai pudesse me guiar… Talvez!
Busquei o recanto certo e me senti envolvida por um silêncio purificador, vital naquele momento. Foi ali que vislumbrei partes de mim, separadas por intervalos de realidades ocultas. Consegui, não só entender a mim mesma naquele período, mas também decifrar as pessoas que me circundavam na ocasião.
Antes, eram apenas sombras de reminiscências, mas a penumbra do ambiente auxiliou-me a encontrar um salutar antídoto contra a mágoa.
E como estaria tudo agora? Avancei, nadando como se toda a minha existência estivesse resumida naquele mergulho avassalador.
Busquei a serenidade, pois na solidão eu poderia extravasar meus sentimentos, livre de questionamentos ou suposições. Queria desfrutar daquele ambiente que eu tanto amava e escalar a sinuosidade do meu próprio caminho, mesmo que a ascensão fosse árdua.
Fui cedendo e emergindo nas profundezas de meus simbolismos interiores mais íntimos.
Quantos anos passei naquele espaço, sem jamais discernir seu verdadeiro significado! E como era gratificante estar ali, imersa naquela solidão acolhedora.
Após uma noite inteira, dissequei cada segundo do que presenciei e senti a necessidade de permanecer, para que a calma pudesse acariciar-me a alma.
Jamais imaginei que estaria ali um dia, em reclusão voluntária, mas com a certeza de que precisaria retornar. Só assim poderia resgatar pontos importantes de minha caminhada. E só agora tomava consciência de que aquele refúgio foi e continuava sendo a elucidação de todas as minhas angustiantes incertezas.
Vânia Moreira Diniz – 17/11/2025



