Luiz Alberto Machado
O gorjeio de pássaros saúda as nuvens afogueadas do dilúculo e a promessa de uma possível pacificação reluzente na esplendida abóbada celeste. Mas, não era: logo cumulonimbus se insinuavam entre nimboestratos e era a incerteza da vida pelo horizonte azulado, com os sinais nem tão longínquos do Lamentável expediente da guerra. E era como se pudesse ver a cena de mãos batendo inexoráveis ao peito, a jactância abominável do umbigo mandão hediondo espalhando espessas mentiras repetidas e reiteradas vezes até soar como verdade absoluta, a inventada nova que precisava da discórdia para firmar parcerias excludentes e estreitar altos laços exclusivos com seus interesses escusos. Precisava mentir e jurar uma fidelidade hipócrita para cravar os dentes na primeira jugular indefesa que confrontasse, preando todos seus xerimbabados e posses, o indébito no cúmulo da extravagância. Este era o recurso frívolo da pugna e que o confronto fosse letal. Os canhões eram drones preparadores da tanatopraxia e se as bombas doessem, pouco importava, quanto mais mortes, melhor! O espetáculo e a festa era de quem e pra quem?
Satisfeita a preação, abandonava-se o monturo de defuntos à sorte de pastores que reconduzissem o rebanho de famélicos, apascentando as rastejadoras feras, na tentativa de apaziguar seus infortúnios e padecimentos.
Os aproveitadores invisíveis fabricavam pestes e crises, o show tinha que continuar.
A própria dor tornava-se invisível e tudo era desumano, porque o bem e o bom deixavam sequelas inadmissíveis e faziam a tragédia insossa da mesmice.
Precisavam-se cotoveladas para abrir caminho, pernadas afugentando aos coices, chutes enxotando fulanos, cuspidas de asco nos beltranos, repulsa por sicranos e a exclusividade da posse, xô pedintes, miseráveis, retardatários.
Era definitivamente o império do ódio. E com a sua síndrome de Pica aos golpes de mordidas no subsolo devorando famintos os subterrâneos de cobre, nióbio, salitre, estanho, ferro, aço, petróleo, ouro e prata, cada vez mais esfomeados com os cintrômetros das jazidas e os retropropulsores da riqueza, a malversação dos recursos e as perduráveis catástrofes, a espoliação e o livre-cambismo, a rapinagem dos despojos nas cláusulas contratuais e seus gravames nas salvaguardas estratégicas, o delírio fraudulento e malthusiano: a necessidade era maior do que se podia obter – na verdade, se obtinha muito mais além da precisão, a obesidade e a ganância, a erosão ética e o fantasma da fome.
As vítimas? Ah, o consabido: a Terra sempre foi a Nau dos insensatos – a Ship of Fools de Katherine Porter -, de esborrar pelo trajeto os deformados das telas de Bacon, qualquer lugar reduzido à Balsa da Medusa migrando para o jardim das delícias de Bosch. E alhures o fim do mundo de Llosa que era o mesmo dos Sertões de Euclides.
Ninguém queria morrer de tédio. Só se matava pra sair da depressão: a vida só para ganhar dinheiro. E muito, de preferência muito mesmo, e acumular além do suficiente e subjugar quem viesse pela frente.
A ansiedade da oniomania não precisava definir que bicho era esse que berrava hostil e fazia de panaceia a guerra.
Era a vez da primavera de Ginsberg: Só quem se curvou pagou com o corpo as sevícias da fraqueza; só quem se acovardou tornou-se vítima da opressão.
A guerra era e sempre foi o atestado de que fracassamos todos, a humanidade foi derrotada, a derrocada humana, a peremptória reprovação do ser humano. E a paz a partir de então se tornou uma utópica pomba que voava numa flamejante bandeira ultrajada pelos estardalhaços da Rosa de Hiroshima. Até mais ver.
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