Vivo imersa em sonhos e me desoriento quando cessa a possibilidade da doação. Sinto-me estarrecida pela dor que perpassa a existência, incapaz de conciliar a força do meu querer com a vasta amplitude dos sofrimentos que o mundo suporta.
Amo a Terra que me acolheu e me apontou a vereda certa para consolar os aflitos. Contudo, o presente tornou-se denso. A desconfiança alastra-se e a maldade, verbalizada ou apenas intuída, instala-se cruelmente, desmoronando a beleza e os tijolos de fantasia que o outro construiu com tanto zelo.
Por vezes, sinto um desejo profundo de regressar ao passado. Resgatar os instantes desperdiçados, a palavra não escutada, o tempo que deixei dissipar em pensamentos vazios e olhares perdidos em esquinas que, outrora, me seduziam.
Nesse conflito entre o que fui e o que o mundo se tornou, percebo o quão árduo é manter a chama da ternura acesa em meio à ventania da indiferença.
Vejo multidões que caminham sem direção, sedentas de um afeto que elas mesmas se recusam a oferecer, blindadas por armaduras invisíveis. E, no entanto, é justamente nessa aridez que insisto em plantar minha esperança, recusando-me a deixar que a frieza alheia petrifique o meu próprio coração ou silencie a voz que ainda clama por união.
Não carrego arrependimentos pelos meus atos, mas sim a nostalgia das quimeras que não concretizei nas fábulas da minha juventude. Gostaria de convocar todos os fantasmas gentis que um dia me cercaram e trazê-los para este mundo atual — que desaprendeu o valor do sorriso — reconstruindo assim meus ideais.
Anseio abraçar os irmãos de jornada que me ensinaram a generosidade e a compaixão, mestres que deixaram a lição de que a travessia seria mais leve se houvesse mais escuta atenta e fé na bondade humana.
Vânia M. Diniz



