Desde 01 de Março de 2022

DA SEMENTE AO CAOS

Luiz Alberto Machado

Um ínfimo grão embrionário num monturo de areia.
Ah, sempre me achei nada diante da imensidão do universo.
Tudo é adverso: o caos, o abismo, o vazio do deserto.
Primordial, do nada pra alguma coisa: de ser maior que a si próprio. E rompo a casca, limites, barreiras, redomas. Absorvo água, luz e calor. Dilato-me e saio do casulo: o mato rasteiro, o lodo do rio, as larvas, os excrementos, descobertas.
Os que vêm e vão: ascendem, descendem. Nem tudo é do mesmo jeito: brotamento, cissiparidade, esporulação, regenerações, hermafroditismo. E testemunho o ciclo dos proglotes pro cisticerco, a viagem do grão do pólen das anteras aos carpelos, os ventos, a chuva, o tempo, vicissitudes, simulacros.
Fixo-me no que sou e estou. E alicerço o primeiro com outros repetidos esforços aos mínimos tentáculos, criando incipientes raízes.
Inauguro a expansão e me enraízo no mundo: o chão, a minha moradia. Sou piso, sou teto e sou eu: o imenso de mim que é nada.
Tento, ouso, enfrento e vou.
Minúsculo, não sou capaz de preencher meus vazios; maiúsculo, muito menos. Não basta o que me cabe.
Quero mais e sou responsável por meu destino.
Escolho, encontros; voltas, despedidas. E broto, cresço-me, faço-me caule, folhas, frutos.
Cumpro minha missão: sou pleno e nada. Eterno retorno.
Regresso-me: degenero e sou nada mais ainda e outra vez. Cinzas aos ventos. Sou-me. Renasço em você. © Luiz Alberto Machado.

Veja mais aqui: https://blogdotataritaritata.blogspot.com/

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