Amanheceu um novo tempo. Um ciclo de felicidades autênticas e perenes. De gratidão ao oceano, ao firmamento, à lua, às constelações e a toda a pujança natural por preencherem meu ser com esperança, a despeito das adversidades. Repousei, banhada pela claridade que jorrava da janela escancarada, saboreando a doçura imensurável daquele instante.
Refletia sobre as inúmeras vezes em que a valentia e a resiliência me levaram a ser grata por experiências que enriqueceram minha jornada. Um sorriso franco floresceu em meio à serenidade, enquanto meu coração se despojava de qualquer amargura, transbordando um desejo de viver, saltar e brincar com a leveza de um infante, percebendo em meu olhar um fulgor de entusiasmo.
Perdoei-me pelas ocasiões em que, talvez, fui severa demais comigo e com a existência, esquecendo-me das flutuações e dos contrastes tão enigmáticos da vida. Era evidente que o fluir dos anos traria novas impressões, me conduziria por eventos distintos e me instigaria a dissipar as mágoas.
Mantinha-me consciente da profundidade do meu desconforto com a penúria daqueles que mal têm o que comer; sabia que me depararia com cenas de violência atroz e desentendimentos, e que testemunharia o egoísmo — começando pelo meu próprio —, abominando cada segundo dessa realidade alarmante.
Sentei-me, sentindo o calor reconfortante do sol em minhas pernas descobertas, e rememorei os dias venturosos que se foram: o encanto dos gestos, das falas, a suavidade dos olhares, abraços e sussurros afetuosos que aqueciam instantes de deleite. Essas memórias conduziam-me à luz, provocando meu riso, ensinando-me o valor verdadeiro das coisas e manifestando-se, belas e acolhedoras, em minha alma.
Meu recomeço é vasto e sedutor, fazendo-me vislumbrar o horizonte logo adiante, adornado por matizes da aurora que apontam o caminho de uma luminosidade vibrante, a qual desejo compartilhar com meus semelhantes. O toque estridente do telefone lembrou-me que a vida segue pulsante e que, independentemente da notícia, eu estaria ali para escutar, entender, enfrentar, regozijar-me e inflamar-me com a energia que o momento exigisse.
Vânia Moreira Diniz



