A casa da minha avó Isabel, na Rua Raimundo Corrêa em Copacabana, foi o cenário das minhas maiores alegrias. Loiríssima, de olhos azuis e cultura invulgar, ela criava um mundo onde nós, os netos, passávamos tardes inesquecíveis.
Mas o ponto alto desses dias era o meu primo Carlos. Dois anos mais velho, ele era meu amigo inseparável e defensor oficial. Nunca esquecerei seu jeito manso, os gestos meigos e aqueles olhos verdes, ligeiramente estrábicos, que me acalmavam.
Carlos era uma criança esguia e frágil, enquanto eu, cheia de vida e corada, corria veloz. Mas, como eu era a única menina no meio daquela garotada, ele tomou para si a missão de me resguardar. Aos seus olhos, eu precisava ser tratada com delicadeza, longe das brincadeiras mais brutas.
Meus irmãos e outro primo zombavam dele por essa insistência em proteger a mim, que transbordava saúde. Mal sabiam eles da coragem imensa que habitava aquele corpo delicado.
A vida, porém, nos apresentou cedo à dureza da realidade. Lembro-me vividamente do dia em que o encontrei deitado, triste, prestes a partir para Campos do Jordão. — “Você está doente?” — perguntei. — “Acho que sim… Vou ter que ir lá para tratar-me” — ele respondeu, com a resignação que eu, na minha revolta infantil, não conseguia aceitar.
Disseram-me que eram “férias”, mas meu coração sabia que era uma despedida. Aquele paraíso de sedução que era a casa da vovó perdeu o encanto. Carlos lutava contra uma lesão no pulmão e, durante anos, vivemos entre intervalos de saudade e breves reencontros.
Quando meu pai me contou, tempos depois, que a doença havia retornado fatalmente, o chão desapareceu. Ele só tinha 21 anos. Não era justo.
Carlos partiu num dia de sol, tão luminoso quanto os da nossa meninice. Mas ele deixou algo que a morte não leva: a memória de um pequeno e altivo herói que enfrentou as intempéries sem uma queixa brusca. Ele veio cumprir a árdua missão da suavidade e do carinho. E vive para sempre no meu coração, nesta infância que foi, a um só tempo, bela e triste.
Vânia Moreira Diniz



