Desde 01 de Março de 2022

A gentileza resiste

Sou, por natureza, uma caminhante distraída. Meus pés percorrem as calçadas, mas meu pensamento habita outras paragens, sempre distante. Hoje, contudo, fui resgatada dessa minha abstração por um episódio que iluminou a complexa diversidade da alma humana.
Estava a caminho da academia, apressada, quando passei por uma daquelas obras que tomam as ruas. Cumprimentei os trabalhadores — homens e mulheres sob o sol inclemente — e segui, sem notar uma corda de isolamento que cruzava meu trajeto. O tombo seria certo, inevitável, se não fosse a intervenção providencial de um dos operários.
Ao perceber meu passo cego, ele se aproximou não com uma advertência ríspida, mas com uma solicitude comovente. “Por aqui não dá para passar, minha senhora”, alertou-me, removendo delicadamente o obstáculo para que eu pudesse seguir em segurança.
Aquele gesto me deteve. Não apenas para agradecer, o que fiz com efusão, mas porque ele tocou em algo profundo. Vivemos cercados por uma tristeza latente, bombardeados por notícias de violências, feminicídios e brutalidades que parecem congelar nossa esperança. No entanto, ali estava a prova viva da diversidade de atitudes que compõem a humanidade: enquanto alguns ferem, outros protegem.
É impressionante — e consolador — testemunhar como esses trabalhadores, sob calor exaustivo e carregando seus próprios fardos pessoais, ainda preservam a gentileza de cuidar do próximo. Sentir essa preocupação vinda de um estranho foi um bálsamo que aqueceu minha alma.
E é justamente nesses pequenos milagres cotidianos que a esperança teima em renascer. Ela não é uma espera passiva, mas a certeza de que a bondade persiste nas frestas da vida, como uma flor que rompe o asfalto. Levo comigo a lição daquele instante: enquanto houver alguém disposto a estender a mão e evitar a queda do outro, haverá sempre um motivo para acreditar que dias mais doces virão.
Vânia Moreira Diniz

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